Postado
originalmente em agosto de 2015
Em 22 de
março de 2015 o Datafolha publicou resultado de pesquisa realizada nos dois
primeiros dias após as manifesstações populares de 15 de março, que levaram
milhoes de pessoas ás ruas em protesto contra o governo. A conlucão da pesquisa
é contundente: A Maioria da população brasileira é contra a privatização
da Petrobras. 61% dos entrevistados disseram ser contra a
privatização da empresa. Isso em um momento em que o país enfrenta uma das
maiores crises politicas e econômicas de sua história e em que o governo
populista da prisidente Dilma Rousseff apresenta um dos menores graus de
popularidade da história republicana. Não bastasse isso, a Petrobras
é também o principal protagonista da crise, devido, nada mais nada menos
, ao maior e mais extraordinário caso de corrupção organizada, sistêmica e
duradoura de que se tem conhecimento neste país.
É bem provável que se a pesquisa fosse feita antes do início da operação lava jato, as opiniões contrárias à privatização teriam sido muito superiores aos 61% registrados em março de 2015.
É bem provável que se a pesquisa fosse feita antes do início da operação lava jato, as opiniões contrárias à privatização teriam sido muito superiores aos 61% registrados em março de 2015.
No dia 4 de
abril, O blogueiro Reinaldo Azevedo, dos poucos que tem coragem de se manifestar
abertamente em favor da privatização da Petrobrás, escreveu na Folha de São
Paulo um blog intitulado “Paixões escravas”, em que ele afirma que
"o misto de má-fé e de má-consciência do petismo contribuiu, sim,
para levar a Petrobras à lona, mas é importante termos claro que os valentes
teriam quebrado a empresa ainda que fossem puros como as flores".
Perfeito. O jornalista, com incrível poder de síntese, disse tudo sobre o
'Estado Gestor', que pode ser corrupto ou não mas é quase sempre
incompetente. É lamentável que 60% dos brasileiros não tem alcance
para entender esse fato.
Na época,
comentei o assunto no site da revista Veja. Transcrevo a seguir, com
modificações, esses comentários.
"Reinaldo,
seu mundo caiu? O meu não. Não haveria de ser por causa do total fracasso do
populismo que levou o país a uma das piores situações econômicas de sua
história e da corrupção sistêmica e generalizada que a evidência dos fatos iria prevalecer sobre a mentalidade
ibérica, romântica, paternalista, assistencialista, oportunista e fisiológica
de um povo. Quem leu Laurentino Gomes, '1808' e '1822', principalmente,
sabe bem que esses adjetivos não são invenção minha. Eu apenas
acrescentaria um: parasítica.
61% são
contra a privatização. Isso me fez lembrar uma frase que ouvi do meu colega
Marcos Caxias de Freitas há mais de 40 anos e que até hoje me parece aterrorizante: "brasileiro gosta de governo" . Isso mesmo, o nosso povo espera em Deus e no
governo para a solução de seus problemas e para a realização de seus anseios.
Na disputa
entre a mentalidade enraizada e as evidências em contrário, a mentalidade
enraizada quase sempre prevalece. Suponhamos que a pergunta
tivesse sido:
- Você aprova o
protecionismo sistemático à produção nacional?
- Você aprova a exigência de índices de nacionalização dos equipamentos financiados pelos bancos públicos?
- Você acha que o governo deve
controlar os preços?
- Você aprova as cotas
para admissão em escolas e empregos?
Alguém
acredita que o percentual de respostas positivas a essas perguntas seria
inferior a 60%?
Nos últimos meses o povo foi às ruas, aos milhões, protestar contra o governo, a
corrupção e os maus serviços públicos. O resultado da pesquisa da Datafolha é
um alerta para que não nos impressionemos tanto com essas manifestações. Elas
foram um ótimo sinal que a classe média não é boba e sabe reagir nos
momentos mais críticos e, principalmente, sabe reagir pacificamente e dentro
das leis. Porém, essa reação, por mais eloquente que tenha sido, com
certeza reflete mais uma insatisfação com a conjuntura, notadamente com a parte que afeta o bolso das pessoas.
Já a pesquisa da Datafolha, focada em um ponto nevrálgico da percepção de uma
realidade histórica, reflete uma cultura altamente enraizada no DNA do
Brasileiro."
A percepção dos políticos sobre o nosso DNA, par sua vez, faz com que eles não se arrisquem a assumir convicções permanentes sobre princípios fundamentais contrárias ao arsenal “progressista” , pois, no dia a dia do funcionamento da política, tais convicções (e a coerência
entre elas) se tornam altamente inconvenientes. Sobre este tema, recomendo que
quem ainda acredita em princípios leia
o artigo de JR Guzzo "Tudo depende", na Veja de 20 de maio de 2015.
É
lamentável que nossa cultura nos incute o medo de sermos uma elite ou
vistos como tal. Faz muita falta ao país um partido que tenha princípios
duradouros e que represente a parcela da população que conhece (ainda que pouco) o funcionamento da economia, que saiba diferenciar entre
histórias de sucesso e histórias de fracasso e, principalmente , que assuma
um dos mais evidentes princípios de economia : não
existe progresso sem aumento de produtividade e não existe melhoria da condição
humana sem sua distribuição.
No comments:
Post a Comment