Thursday, October 20, 2016

Seu Mundo Caiu?

Postado originalmente em agosto de 2015

Em 22 de março de 2015 o Datafolha publicou resultado de pesquisa realizada nos dois primeiros dias após as manifesstações populares de 15 de março, que levaram milhoes de pessoas ás ruas em protesto contra o governo. A conlucão da pesquisa é contundente:  A Maioria da população brasileira é contra a privatização da Petrobras.  61% dos entrevistados disseram ser contra a privatização da empresa. Isso em um momento em que o país enfrenta uma das maiores crises politicas e econômicas de sua história e em que o governo populista da prisidente Dilma Rousseff apresenta um dos menores graus de popularidade da história republicana. Não bastasse isso, a Petrobras  é também o principal protagonista da crise, devido, nada mais nada menos , ao maior e mais extraordinário caso de corrupção organizada, sistêmica e duradoura de que se tem conhecimento neste país.  
É bem provável que se a pesquisa fosse feita antes do início da operação lava jato, as opiniões contrárias à privatização teriam sido muito superiores aos 61% registrados em março de 2015.
No dia 4 de abril, O blogueiro Reinaldo Azevedo, dos poucos que tem coragem de se manifestar abertamente em favor da privatização da Petrobrás, escreveu na Folha de São Paulo um blog intitulado “Paixões escravas”, em que ele  afirma que "o misto de má-fé e de má-consciência do petismo contribuiu, sim, para levar a Petrobras à lona, mas é importante termos claro que os valentes teriam quebrado a empresa ainda que fossem puros como as flores". Perfeito. O jornalista, com incrível poder de síntese, disse tudo sobre o 'Estado Gestor', que pode ser corrupto ou  não mas é quase sempre incompetente. É lamentável que 60% dos brasileiros não tem alcance para entender esse fato.  

Na época, comentei o assunto no site da revista Veja. Transcrevo a seguir, com  modificações, esses comentários. 

"Reinaldo, seu mundo caiu? O meu não. Não haveria de ser por causa do total fracasso do populismo que levou o país a uma das piores situações econômicas de sua história e da corrupção sistêmica e generalizada que a evidência dos fatos iria  prevalecer sobre a mentalidade ibérica, romântica, paternalista, assistencialista, oportunista e fisiológica de um povo. Quem leu Laurentino Gomes, '1808' e '1822',  principalmente, sabe bem que esses adjetivos não são invenção minha.  Eu apenas acrescentaria um: parasítica. 
61% são contra a privatização. Isso me fez lembrar uma frase que ouvi do meu colega Marcos Caxias de Freitas há mais de 40 anos e que até hoje me parece aterrorizante: "brasileiro gosta de governo" . Isso mesmo, o nosso povo espera em Deus e no governo para a solução de seus problemas e para a realização de seus anseios.
Na disputa entre a mentalidade enraizada e as evidências em contrário, a mentalidade  enraizada quase sempre prevalece. Suponhamos que a pergunta tivesse sido:
  •  Você aprova o protecionismo sistemático à produção nacional?
  • Você aprova a exigência de índices de nacionalização dos equipamentos financiados pelos bancos públicos? 
  • Você acha que o governo deve controlar os preços?
  • Você aprova as  cotas  para admissão em escolas e empregos?



Alguém acredita que o percentual de respostas positivas a essas  perguntas seria inferior a 60%?

Nos últimos meses o povo foi às ruas, aos milhões, protestar contra o governo, a corrupção e os maus serviços públicos. O resultado da pesquisa da Datafolha é um alerta para que não nos impressionemos tanto com essas manifestações. Elas foram um ótimo sinal que a classe média não é boba  e sabe reagir nos momentos mais críticos e, principalmente, sabe reagir pacificamente e dentro das leis. Porém, essa reação, por mais eloquente que tenha sido, com  certeza reflete mais uma insatisfação com a conjuntura, notadamente com a parte que afeta o bolso das pessoas.  Já a pesquisa da Datafolha, focada em um ponto nevrálgico da percepção de uma realidade histórica, reflete uma cultura altamente enraizada no DNA do Brasileiro."  
A percepção dos políticos  sobre o nosso DNA, par sua vez,  faz com que eles não se arrisquem  a assumir convicções permanentes sobre princípios fundamentais contrárias ao arsenal  “progressista” , pois, no dia a dia do funcionamento da política,  tais convicções (e a coerência entre elas) se tornam altamente inconvenientes. Sobre este tema, recomendo que quem ainda acredita em princípios leia o artigo de JR Guzzo "Tudo depende", na Veja de 20 de maio de 2015. 

É  lamentável que nossa cultura nos incute o medo de sermos uma elite ou vistos como tal. Faz muita falta ao país um partido que tenha princípios duradouros e que represente a parcela da população que conhece (ainda que pouco) o funcionamento da economia, que saiba diferenciar entre histórias de sucesso e histórias de fracasso e, principalmente , que assuma  um dos  mais evidentes  princípios de economia :  não existe progresso sem aumento de produtividade e não existe melhoria da condição humana sem sua distribuição.



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