Reinaldo Azevedo, em seu post de 19/01/2017, disse:. "Em momentos assim, é preciso que a gente não se deixe levar pelo pessimismo cínico: “Esse país não deu certo! Não adianta! Nada presta”. Os que enveredam por aí costumam se eximir de qualquer responsabilidade, jogando a culpa, confortavelmente, nos ombros alheios. Quem nunca ouviu um interlocutor a censurar “os brasileiros” por isso ou por aquilo? Sim, “brasileiros” são sempre os outros, não é mesmo?"
Hoje mesmo enviei o comentário abaixo para o blog do jornalista na revista Veja.
No meu conceito, em economia não existe otimismo nem pessimismo. Se o que está sendo feito é sensato, pode-se esperar bons resultados futuros e vice versa. Esse princípio, obviamente, pode ser afetado por fatores externos de materialidade maior que as ocorrências internas. No mais, esse papo de otimismo e pessimismo deve se restringir ao âmbito dos discursos.
Vamos lá Reinaldo, com todo respeito pelo seu blog, que considero um dos melhores do país, acho que você generalizou mais que devia ao não ressalvar que o ceticismo bem fundamentado não é pessimismo nem cinismo. Eu gostaria de lembrar que para se formularem boas propostas são necessários diagnósticos precisos e audaciosos dos problemas, o que muitas vezes exige constatações chocantes que quase sempre são qualificadas como pessimismo. É o que acontece quando se avaliam as qualidades ou, mais especificamente, às faltas de qualidades do nosso povo e de nossas instituições. Os analistas que trabalham com constatações tão perturbadoras não necessariamente costumam estar tirando seu da reta ou jogando a culpa nos ombros alheios.
No meu blog - http://joaolucio-jlf.blogspot.com.br/ - defendo que para o Brasil de fato melhorar é preciso mudar inúmeros elementos culturais, padrões de comportamento e atitudes, alguns herdados devido à nossa ascendência ibérica e outros desenvolvidos aqui, porém todos profundamente enraizados em nosso DNA. Frequentemente me refiro à necessidade de mudanças drásticas, muitas delas de mentalidade, que só acontecerão na medida em que as novas gerações se tornarem muito mais permeáveis à racionalidade e menos vulneráveis aos apelos caridosos e cheios de compaixão, dirigidos principalmente aos não têm alcance para entender as lições da história. Parafraseando você mesmo, a bondade só se faz através da racionalidade, não é assim?
Eu diria que precisamos até mesmo ir além da mudança de mentalidade. Precisamos desenvolver vocações que nunca tivemos, por exemplo, adquirir apetite por coisas pelas quais temos aversão, como controles, resultados, avaliações, correções de rumo, prêmios e punições por méritos e deméritos. Não há como conceber um país em processo de desenvolvimento que tenha um Ministério do Paternalismo e do Assistencialismo mais poderoso que o Ministério da Controladoria. É duro mas é verdade. Somos um país subdesenvolvido e não um país em desenvolvimento. O que precisa acontecer neste país é de tamanha dimensão que equivale a uma revolução, não das que temos visto por aí, mas uma revolução dentro das nossas cabeças. Isso não acontecerá por moto próprio nem dentro de só uma ou duas gerações.
E quais seriam as constatações tão aterrorizantes que levam a proposições tão radicais? Em um post de 26 /11 /2016, eu relacionei algumas:
Parasitismo, corporativismo, fisiologismo, permissividade e incompetência estão profundamente enraizados em nossa formação.Desde sempre. Por outro lado, não nos damos muito bem com conceitos como ética, individualismo, mérito, desempenho, austeridade, competitividade, sucesso, comando, gestão, liderança, inovação, criatividade, diferença, motivação, talento. disciplina, organização,empreendedorismo, persistência, metas, dedicação, esforço, comprometimento e profissionalismo.
Convenhamos, não são marcantes entre nós as características de um povo ou de instituições competentes e politicamente consequentes. Por outro lado, temos todas as manhas de um país culturalmente limitado.
Somos assim e ponto. Do jeito que somos, podem ser feitas mudanças e reformas para melhorar a conjuntura, para sair de cada crise ou até mesmo para evitar a próxima. Mas para o país enveredar pelo caminho consistente do desenvolvimento econômico e social será preciso que mude a essência da cultura do nosso povo e de nossas instituições. Será preciso que as futuras gerações sejam substancialmente diferentes do que somos, livres da prevalência romântica, ideológica, fisiológica, parasitária e corporativista, e que tenham o juízo e a coragem para extirpar esses vícios das nossas instituições.
Não é pessimismo cínico, Reinaldo, é ceticismo com profunda fundamentação histórica. E, de tudo, o pior é que os personagens do debate político, a partir do qual o nosso futuro será moldado, desconsideram solenemente os interesses do país e fingem descaradamente que a ficha ainda não caiu.
Rubens Ricupero não poderia ter sido mais feliz em uma das frases da semana publicadas em "Veja essa", edição de 2/11/16 : "Estamos vivendo um período de grandes incertezas, mas é preciso recuperar um histórico que aponta que isso, de certa forma, é a normalidade no nosso caso.”
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