Saturday, March 03, 2018

Temer mostra a cara



Até o momento em que se anunciou a intervenção militar na área de segurança do Rio de Janeiro e, concomitantemente,  o tema da reforma da previdência desapareceu do cenário político , eu mantinha uma certa perplexidade quanto ao comportamento do presidente.
Estava difícil entender porque uma pessoa de índole fisiológica e ética questionável estava tomando medidas racionais, do interesse do país e aparentemente contrárias ao que poderia se esperar dele. Macaco velho como ele é, nem de longe poder-se-ia supor que Temer fosse inconsistente ou  contraditório. Medidas como a limitação do teto de gastos,  as mudanças nas Leis Trabalhistas, a viabilização das regras de exploração do Pre-Sal, a redução de subsídios e desonerações, a redução gradual e responsável das taxas de juros, a devolução ao tesouro de recursos pelo BNDES, a prática de preços realistas dos derivados de petróleo, etc, que trouxeram  resultados positivos para o país, eram realmente motivos para a perplexidade de muitos
O fato mais notável  do mandato de Temer até agora é que ele chegou a fazer história. Não só no Brasil, mas até como exemplo de conduta competente que deve ser adotado nas recomendações do FMI, do Banco Mundial e similares. Vários economistas de renome, inclusive alguns vinculados a esse tipo de  instituições internacionais, sempre relutaram em recomendar medidas de austeridade fiscal ou monetária em períodos de recessão, sob a alegação que tais medidas inibiriam a retomada do crescimento.  É interessante,  muito interessante, lembrar  que o presidente e sua equipe econômica assumiram o governo durante uma recessão que durou 11 trimestres e representou uma redução acumulada no PIB de 8,6%. Foi exatamente dentro desse cenário que Meirelles e sua equipe - obviamente com a anuência do presidente - com prudência, responsabilidade e timing perfeito, administraram a evolução da mais alta para a mais baixa taxa referencial de juros da história. E, nesse mesmo período, a economia saiu da recessão e o país voltou a crescer.
Meirelles e sua equipe, e porque não seu chefe supremo,  podem se gabar de que sua atuação muda a postura absolutista de alguns teóricos que pregam que não se deve adotar a austeridade em momentos de recessão. Eles demonstraram que é possível, com a devida competência gerencial, adotar  uma postura mais flexível, através da qual se admita manter as rédeas sobre a inflação e ao mesmo tempo fazer a economia parar de cair e voltar a crescer. Isso definitivamente não é pouco e merece o devido crédito.
Porém, não nos deixemos iludir. Com uma intervenção meia boca na segurança do Rio (mesmo assim é preciso apoiar a medida e torcer para que dê certo)  e com o abandono da reforma da previdência, Temer já começou a mostrar a cara.  
Este texto foi escrito em 03/03/18, quando  ainda restam 10 meses para o termino do mandato presidencial. Temer tem ainda tempo suficiente para fazer valer sua índole e praticar atos memoráveis, capazes de destruir tudo que construiu, principalmente em se tratando de um ano de eleições


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