Até o
momento em que se anunciou a intervenção militar na área de segurança do Rio de
Janeiro e, concomitantemente, o tema da
reforma da previdência desapareceu do cenário político , eu
mantinha uma certa perplexidade quanto ao comportamento do presidente.
Estava
difícil entender porque uma pessoa de índole fisiológica e ética questionável
estava tomando medidas racionais, do interesse do país e aparentemente
contrárias ao que poderia se esperar dele. Macaco velho como ele é, nem de
longe poder-se-ia supor que Temer fosse inconsistente ou contraditório. Medidas como a limitação do
teto de gastos, as mudanças nas Leis
Trabalhistas, a viabilização das regras de exploração do Pre-Sal, a redução de
subsídios e desonerações, a redução gradual e responsável das taxas de juros, a
devolução ao tesouro de recursos pelo BNDES, a prática de preços realistas dos
derivados de petróleo, etc, que trouxeram resultados positivos para o país, eram
realmente motivos para a perplexidade de muitos
O fato mais
notável do mandato de Temer até agora é
que ele chegou a fazer história. Não só no Brasil, mas até como exemplo de conduta
competente que deve ser adotado nas recomendações do FMI, do Banco Mundial e similares.
Vários economistas de renome, inclusive alguns vinculados a esse tipo de instituições internacionais, sempre relutaram
em recomendar medidas de austeridade fiscal ou monetária em períodos de
recessão, sob a alegação que tais medidas inibiriam a retomada do crescimento. É interessante, muito interessante, lembrar que o presidente e sua equipe econômica
assumiram o governo durante uma recessão que durou 11 trimestres e representou
uma redução acumulada no PIB de 8,6%. Foi exatamente dentro desse cenário que
Meirelles e sua equipe - obviamente com a anuência do presidente - com
prudência, responsabilidade e timing perfeito, administraram a evolução da mais
alta para a mais baixa taxa referencial de juros da história. E, nesse mesmo
período, a economia saiu da recessão e o país voltou a crescer.
Meirelles e
sua equipe, e porque não seu chefe supremo, podem se gabar de que sua atuação muda a
postura absolutista de alguns teóricos que pregam que não se deve adotar a
austeridade em momentos de recessão. Eles demonstraram que é possível, com a devida
competência gerencial, adotar uma
postura mais flexível, através da qual se admita manter as rédeas sobre a
inflação e ao mesmo tempo fazer a economia parar de cair e voltar a crescer.
Isso definitivamente não é pouco e merece o devido crédito.
Porém, não
nos deixemos iludir. Com uma intervenção meia boca na segurança do Rio (mesmo
assim é preciso apoiar a medida e torcer para que dê certo) e com o abandono da reforma da previdência, Temer
já começou a mostrar a cara.
Este texto
foi escrito em 03/03/18, quando ainda
restam 10 meses para o termino do mandato presidencial. Temer tem ainda tempo
suficiente para fazer valer sua índole e praticar atos memoráveis, capazes de destruir tudo que
construiu, principalmente em se tratando de um ano de eleições
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