Saturday, April 11, 2020

Feinberg, ou, se Paulo Freire tivesse juízo


Em apenas dois terços de uma página de revista, o  Mike Feinberg diagnostica o mais complexo problema da educação fundamental em áreas de intensa pobreza e  indica   uma solução.
O problema: no ambiente familiar das classes mais pobres as crianças  convivem  com uma cultura que  incentiva e valoriza o conhecimento muito menos que o  desejável.
A solução: manter essas crianças o maior tempo possível em um ambiente cultural mais propício e empregar práticas educacionais e gerenciais adequadas. 
Dentre as práticas que as escolas devem adotar;  Feinberg destaca:
  • a responsabilidade  dos alunos pelo fracasso.
  • a adoção de horário integral  para que os alunos possam dedicar-se a aprender  e a praticar o que aprendem (ler muito e fazer muitos exercícios de matemática, por exemplo);
  • o compromisso   incondicional com o mérito e rompimento com o igualitarismo.
  • a gestão por padrões empresariais ("incentivar os quadros mais talentosos e ter pulso para se livrar dos menos eficazes" (quebrar o tabu das demissões).
  • combate ao corporativismo, que Feinberg qualifica como " um incômodo obstáculo à qualidade".

Feinberb informa que outros países do terceiro mundo já têm escolas que se baseiam nos dois pilares do sucesso de seu método: professores competentes e alunos imersos na escola em tempo integral. E ele se pergunta: por que não o Brasil?

Lamentavelmente, onde o populismo prospera os  ensinamentos de Feinberg não encontrarão boa receptividade. Para os partidos populistas, a educação e a cultura são ótimas bandeiras, Porém, o compromisso com sucesso efetivo dos projetos educacionais é uma grande encrenca, pois eleitor esclarecido não vota em  político populista.
Daí, é possível antever como será a receptividade do setor publico brasileiro aos ensinamentos de Feinberg:
  • o  diagnóstico do problema, e o rompimento com o igualitarismo, serão   tachados de elitistas e de preconceituosos; 
  • os professores públicos não assumirão a responsabilidade pelo fracasso de seus alunos, até porque o funcionário público, se não for pego roubando e se não matar,  não será responsabilizado por nada;
  • a remuneração vinculada ao mérito será considerada  um afrontamento ao igualitarismo e um perigo para os mediocres.  Demissões, então, nem pensar.

Também, seria ingenuidade acreditar que os praticantes do  corporativismo, sentimento tão profundamente enraizado na cultura do serviço público brasileiro, venham a levar em conta se estão ou não sendo um obstáculo à qualidade.
Por essas razões, não se deve  esperar que o governo populista tenha vontade política de implementar as idéias de Mike Feinberg. 

É preciso, ainda, considerar o fator custo. O ensino em  tempo integral é caro assim como é caro remunerar adequadamente os professores competentes. 

Porém, em artigo recentemente publicado em Veja, Mailson da Nóbrega mostrou que o percentual do PIB que o Brasil gasta com educação não é baixo em relação ao que gastam  países que têm resultados muito melhores que os nossos. Como sempre brilhante, o Mailson da Nóbrega critica a fixação dos gastos com educação em 10% do PIB e deixa claro  que o problema educacional do Brasil é de gestão e não de dinheiro.

Um dia, talvés, Mailson.… quem sabe?



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