O parasitismo econômico no Brasil
O
jornalista e historiador Laurentino Gomes teve o mérito de relatar, em
linguagem atraente e accessível, três
importantes momentos da história de Brasil, 1808, 1822 e 1898. Com isso, angariou leitores de
diversos segmentos da sociedade brasileira que pouco ou nenhum interesse teriam
sobre o tema se não tivessem sido atraídos por curiosidade e pela perspectiva
de uma leitura agradável. Graças a Laurentino Gomes, executivos, empresários,
profissionais liberais e outros usufruíram do benefício de conhecer um pouco da
história do país e de confirmar a mentalidade do brasileiro, em alguns aspectos
relevantes, mudou pouco com relação ao que era na primeira metade do século
XIX.
Um desses
aspectos, possivelmente o mais importante sob o ponto de vista do
desenvolvimento econômico e social do país, é o que trata das aspirações das
pessoas. A corte fugida de Portugal e trazida para o Brasil por D. João VI não
tardou a demonstrar que tinha como principal aspiração mamar nas tetas do
governo. E o governo, por sua vez, para custear as aspirações da ninhada, não
hesitou em impor elevada carga de impostos, constrangendo o desenvolvimento dos
negócios na colônia.
Assim, se
as colônias ibéricas no novo mundo já carregavam, por herança cultural e
religiosa, o fardo representado por uma elite composta principalmente por
funcionários públicos, latinistas, bacharéis e românticos das mais diversas
modalidades, enquanto nas colônias anglo-saxônicas a havia mais técnicos, cientistas, engenheiros e,
principalmente, empreendedores. A herança ibérica introduziu, ainda, por
sedimentação de usos e costumes, uma categoria adicional: a dos oportunistas
aproveitadores.
O
entendimento que nos foi facilitado por Laurentino Gomes obviamente não explica
tudo mas nos ajuda a encontrar, em nossas raízes, uma parte importante dos
porquês de sermos hoje um país eticamente relaxado, corrupto e com fortes
tendências paternalistas, exatamente na
contramão dos países que tem apresentado as maiores taxas de crescimento e de
evolução de qualidade de vida.
De
repente, ficou mais fácil para os leitores de Laurentino Gomes perceber porque,
em pleno século XXI, são eleitos simultaneamente para as presidências da Câmara
e o Senado cidadãos de padrões éticos
questionáveis, reputação duvidosa e altamente comprometidos com a sustentação
de práticas fisiologias dentro das instituições que presidem ou presidiram.
Ficou
mais fácil entender um pouco mais sobre a razão da sequência interminável de
escândalos e a prevalência absoluta, nos meios de comunicação, de notícias
relacionados com impunidade, corrupção, politicagem, violência, insuficiência
ou inadequação dos serviços públicos .
Ficou
mais fácil também entender o porque do corporativismo generalizado, das bolsas
e das quotas e da profunda rejeição da meritocracia.
Em suma,
ficou mais fácil perceber porque os investimentos do Estado são uma parcela
ínfima do PIB, porque o Custo Brasil é exorbitante e porque os investidores
internacionais, apesar de sermos ricos
em recursos naturais e termos um dos mercados mais promissores do mundo, fazem
restrições a investir no Brasil.
É
possível destacar dois elementos que permitem sintetizar as relações de causa e efeito da ascendência
ibérica sobre a formação econômica do Brasil: a presença marcante dos oportunistas aproveitadores e a sua
consequência natural, o enraizamento do
parasitismo em nossos usos e costumes.
Tendo o parasitismo criado raízes, a consequência natural foi o
estabelecimento do corporativismo como instrumento de proteção do parasitismo.
O
parasitismo não é um conceito abstrato.
Parasita é um termo forte e marcante, e pode ser um prato
feito para as patrulhas do politicamente
correto. Porém, não se trata do uso de
um termo impactantes para obter efeito
panfletários ou discursos ideológicos. Ele pode ser
definido em termos matemáticos e pode referir-se tanto uma pessoa, a uma
instituição ou a um setor da economia como um todo.
Em todos
os casos o parasitismo pode ser definido como um valor absoluto e em alguns
casos também como um índice (Coeficiente de Parasitismo) .
O que
caracteriza o parasitismo econômico é o mesmo que caracteriza o parasitismo
biológico: um indivíduo suga alimentos (recursos) de outro para o seu próprio
sustento (interesse). O indivíduo, no caso, do parasitismo econômico, pode ser
um funcionário, um órgão público, uma ‘ONG’, uma empresa privada ou pública ou
até mesmo um segmento inteiro da sociedade.
Quando um
funcionário, por exemplo, produz menos que o seu custo (remuneração mais gastos
diretos e indiretos resultantes do seu vínculo funcional), ele mantém uma
relação parasitária com a sociedade. O valor absoluto desse parasitismo, em um
determinado período, é dado matematicamente pelo valor do produto do trabalho
do funcionário menos o seu custo. Obviamente, se o resultado dessa equação for
positivo, não existe o parasitismo. Se for negativo, existe o parasitismo.
Essa equação pode ser adequada a várias
situações.
Quando
uma empresa pública ou privada,
detentora de privilégios de mercado (monopólio, concessionárias de
serviços públicos) , entrega seus
produtos ou serviços à sociedade a preços mais altos ou qualidade inferior quando comparados com a
hipótese de ausência do privilégios ,
ela mantém uma relação parasitária com a sociedade. O valor absoluto desse parasitismo
pode ser medido pelo valor recebido pela
sociedade em produtos e serviços menos o
valor que seria recebido se a empresa não tivesse privilégios de mercado.
Vale
lembrar aqui que esse tipo específico de parasitismo de empresa se tornou fato
corriqueiro no Brasil de hoje, em função da presença maciça da corrupção nas
relações entre governo e empresas privadas.
Também,
quando uma empresa privada recebe subsídios e incentivos do governo e o retorno
que dá a sociedade não supera os resultados que seriam obtidos sem
artificialismos, caracteriza-se o parasitismo.
E para
fechar o ciclo de exemplos, quando o setor público como um todo retorna à
população bens e serviços cujo valor é menor que o dos impostos arrecadados
(líquidos de investimentos, serviço da dívida e outras obrigações), ele mantém
uma relação parasitária com a sociedade como um todo.
Nesse
caso específico, é interessante notar que o conceito do parasitismo como índice
pode ser um importante instrumento de análise econômica. Esse índice pode ser
definido pela seguinte como 1 menos o coeficiente de eficiência do setor
público, onde o coeficiente de
eficiência do setor público é igual valor dos serviços públicos prestados á
população dividido pelo valor líquido da arrecadação tributária.
Em outras
palavras, se o valor líquido da arrecadação tributária for igual a 100 e o
valor dos serviços públicos prestados à população for igual a 40, Coeficiente
de eficiência do setor público será de 40/100, ou 0,40 e o Coeficiente de
parasitismo do setor público será de 0,60.
De todos
os exemplos acima, o mais útil sob o ponto de vista macroeconômico, é o caso do parasitismo do setor público. Seria
útil se o IBGE, no cálculo periódico do PIB, fizesse esse cálculo, estimando e dando destaque a parcela correspondente aos
bens e serviços produzidos pelos governos federal, estaduais e municipais.
Porém,
para fazer justiça ao setor público, a fórmula precisa ser ajustada por um
fator de produtividade que reflita uma diferença aceitável entre a
produtividade do setor público e do setor privado. Isso porque, em nenhum país
do mundo o setor público é padrão em matéria de produtividade. Alguma diferença
é aceitável. O problema é que no Brasil essa diferença transcende os limites da
razoabilidade.
Para
concluir, incluímos a listagem abaixo, que procura identificar quem são os
principais parasitas, as principais consequências do Parasitismo de Estado, os
facilitadores do parasitismo (pessoas e instituições) e a ética do parasitismo.
Ou seja, como princípios éticos são relaxados no país para facilitar a ação dos
facilitadores do parasitismo.
Parasitas:
- Funcionários com produtividade inadequada a seus custos.
- Executivos e funcionários, nomeados por critérios políticos, de apadrinhamento etc, com nível de capacitação inferior ao requerido pela função.
- Empresas estatais com padrões de lucratividade inferiores à de empresas privadas do mesmo negócio ou que forneçam a preços maiores ou qualidade inferior às alternativas que poderiam se fazer disponíveis.
Observe-se, nesse caso, que as parcelas da formação do preço que
resultam da carga tributária, refletem o parasitismo do Estado com relação à
sociedade transitando pela empresa.
- Empresas prestadoras de serviço, fornecedoras ou concessionárias de serviços públicos que entregam seus produtos ou serviços a preços superiores ou padrões de qualidade inferiores aos de mercado (ou contratado, no caso de qualidade).
Conseqüências
primárias óbvias:
- Redução da disponibilidade de recursos para investimentos públicos.
- Redução de recursos para investimentos nas mãos de empresas e cidadãos produtivos.
- Elevado potencial inflacionário.
Facilitadores
do parasitismo:
- Corruptos que permitem o parasitismo do setor privado,
- Nepotistas e padrinhos políticos de parasitas.
- Governantes que trocam cargos por apoio político.
- Políticos empreguistas, empregos em troca de votos.
- Políticos ou burocratas que deixam de tomar ou adiam medidas necessárias quando elas são impopulares.
Facilitadores
culturais e institucionais:
- Presença, ainda importante e profundamente enraizada da mentalidade ibérica
- Aceitação do Estado como Provedor
- Governo grande
- Complexidade normativa (dificuldades que facilitam vender facilidades), como órgãos de controle ambiental de níveis federal, estadual e municipal operando nas mesmas áreas e com atribuições semelhantes.
Relaxamento
ético da sociedade.
- Evidências de corrupção sem investigação ou processo.
- A obstrução política, abertamente realizada inclusive dentro do congresso, para evitar investigações.
- A falta de uma ética no sentido de quem é acusado ter a obrigação de exigir que seja investigado, afastando-se provisoriamente do cargo.
- A falta de consciência (percepção) do povo para o fato de a obstrução da investigação é sinal de culpa.
- Atrocidades legais como a possibilidade do congressista renunciar para não ser cassado e não perder os direitos políticos
- Falta de percepção, inclusive da imprensa, para o fato de que troca de cargos por apoio político equivale exatamente à troca de dinheiro público por apoio político. O mensalão acabou resultando em condenações, mas nem se cogita, no Brasil, de impeachment pela acomodação de interesses políticos com loteamento de cargos no governo. O petrolão
Não é totalmente evidente para a sociedade os fatos de os ungidos
receberem remuneração através de dinheiros públicos, de não terem sido
selecionados devido a qualificações adequados às exigências do cargo ( e
portanto tendem a administrar mal a coisa pública) e o que pior: receberem
poder sobre administração orçamentária cuja destinação pode servir a interesses
pessoais ou partidários. Em outras palavras, não é totalmente evidente para a
sociedade que essa prática é favorecimento da administração ruinosa do
patrimônio público.
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