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do sub-óbito. (2) O Planejamento
Econômico
Sou da
geração de economistas que viveu com maior intensidade o anseio de implantar um
sistema de planejamento no Brasil. Eram os anos 60 e 70 do século passado e o pano de fundo era o regime militar. Nós,
os tecnocratas da época, estávamos com
tudo.
De lá para
cá, várias tentativas fracassaram. Paulo Roberto de Almeida, em artigo no
Estadão de 05/10 /16, explica as
razões do fracasso e afirma de forma conclusiva: “ouso propor que não mais
tenhamos planejamento estatal – o que não deve impedir a pesquisa econômica
aplicada".
Não vou
tratar aqui de um tema que esse articulista trata com rara percepção. Recomendo que todos leiam o
trabalho que pode ser encontrado em http://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,contra-o-planejamento-estatal,10000080251. Prefiro cuidar aqui só de aspectos não abordados por Paulo Roberto de Almeida, principalmente no tocante ao que o setor
público pode aprender com o setor privado.
Concordo
com tudo que ele escreveu, inclusive com o fato que o Estado deve sim realizar
e patrocinar a pesquisa econômica aplicada. Eu acrescentaria ainda projetos
específicos voltados para tecnologia e gestão.
O Aspecto
organizacional e metodológico
O governo
entende que pode planejar através de órgãos de planejamento. O Ministério do
Planejamento, por exemplo, estaria apto a planejar para a indústria, a agricultura, o comércio,
os serviços, a tecnologia e outras áreas. Entende ainda que pode planejar para
períodos que se estendem por mais de uma administração.
Mas nenhum
executivo engole planos feitos por outros. Cada um tem suas ideias, suas
ambições e sua postura para valorização pessoal e do cargo que ocupa. Imaginem
um alto executivo do Ministério ABC explicando publicamente que está
simplesmente cumprindo as determinações do Plano Quadrienal XYZ. Como ficaria a posição do ministro, que se não tivesse ideias próprias não deveria
ser ministro? E no ano seguinte, tendo quase tudo dado errado, imaginem o mesmo
executivo explicando que continua cumprindo o plano porque nunca ouviu falar de avaliação de
resultados ou de correção de rumos.
Aliás, em
se tratando de setor público, alguém já ouviu falar dessas coisas?
O plano é
um belo prato para divulgar, mas convocar a imprensa para dizer que deu errado
e que é preciso mudar o curso, nem se Pindorama fosse Pasárgada.
Independentemente
do tipo de planejamento, estratégico, tático ou operacional, não justifica aqui
detalhar conceitos ou procedimentos . Só é preciso enfatizar que área de
planejamento não deve planejar, em
discordância com a cultura popular e com o anseio de muitos ideólogos e
tecnocratas. Uma unidade de planejamento não deve se intrometer mais que na
condução do processo, dentro de uma metodologia geralmente aceita. A
insistência em planejar para os outros nunca resultou em nada. Paulo Roberto de
Almeida, que já mapeou vários planos desde 1930, não deixa por menos: a " grande
realização é, a cada vez, tornar a sociedade brasileira mais dependente do Estado e do planejamento
estatal. Uma coisa sustenta a mesma coisa...".
Quem tem
que planejar são os mesmos que tem a função de
executar. Os especialistas no processo nem precisam ser funcionários; podem
perfeitamente ser consultores contratados para a tarefa. Sua função é orientar
os executivos de cada área para que
sigam procedimentos padronizados e coerentes
com os das demais áreas. O processo é normalmente desenvolvido em etapas.
No nível mais elevado são dadas as definições globais como missão, estratégias,
políticas, grandes metas e objetivos.
Nos outros níveis são detalhados os planos operacionais.
Em um país
cuja ascendência é ibérica e onde os princípios adotados costumam ser mais românticos
que práticos, é preciso enfatizar que planejamento é uma função altamente
hierarquizada. Não pode deixar de ser. Se as definições não forem tomadas nos
níveis de autoridade competentes e comandadas de cima para baixo, procedimentos
não serão padronizados nem coerentes e as definições globais jamais serão
refletidas em todos os níveis da organização. Lamento dizer que o planejamento
é sim, um processo participativo e de negociações, mas definitivamente não é um
processo democrático. É um processo fundamentado na disciplina, uma característica
com a qual o brasileiro tem especial dificuldade de lidar.
O apecto
político
O elemento
mais essencial do planejamento é o comprometimento, espontâneo ou não, de cada
executivo com o que for definido e
aprovado. Na medida em que os planos são
detalhados, na sequência que vai do topo
à base da organização, são definidos objetivos, metas e planos de ação de cada
nível. Os planos só se tornam instrumentos hábeis de gestão na medida em
que são identificados nominalmente os
profissionais responsáveis por cada ação. Qualquer o plano é inócuo se o
sistema de remuneração variável não
tiver por base os resultados acordados durante o processo de planejamento.
Para
entender bem o que significa 'resultados acordados' é preciso entender que o
processo de planejamento se estende às
práticas de interação política entre os
diversos níveis da organização. É um processo de negociações sucessivas que
buscam garantir que as grandes definições serão perseguidos com todo o
comprometimento, desde o nível mais alto
até os funcionários menos graduados.
Em
essência, o sistema de planejamento deve indicar o caminho para que o conjunto dos indivíduos envolvidos constitua um grupo em que as ações
de cada um são coerentes com uma finalidade comum.
Isso pode
acontecer no governo?
Sob todos os aspectos, sendo curto e grosso,
não! Independentemente da determinação política, o governo não conseguiria nem
explicar um processo dessa complexidade. O número e a diversidade de formação
dos funcionários supera a capacidade de permeação de conceitos e,
principalmente, de atitudes dentro do sistema. A logística seria inimaginável, assim como a manutenção da coerência entre os orientadores do processo.
A administração de conflitos seria uma tarefa enlouquecedora.
Mas, ainda
que se faça uma abstração e se admita
que isso seja possível, como ficariam o acompanhamento da execução e a
avaliação de desempenho? O governo teria a disciplina e a persistência para
essas atividades que só dão IBOPE negativo? Como o governo iria distribuir a
autoridade para fazer disseminar por toda sua estrutura a premiação dos vencedores e a responsabilização dos que não entregarem
resultados?
Não há
outra conclusão possível. Os governos têm o dever de produzir definições de natureza política e estratégica, mas não
têm o direito de gastar o dinheiro do
contribuinte metendo o bedelho nos detalhes de execução, produzindo livros
volumosos para desperdiçar espaço em prateleiras.
O
Brasil será, com certeza, um país melhor
quando os trabalhos acadêmicos citarem o binômio energia e transportes e o
plano de metas de JK não como os primórdios do planejamento estatal, mas como a
sua fase áurea.
PARA MINEIROS
VELHINHOS E SAUDOSISTAS
Quem não é
mineiro com mais de 70 anos pode parar por aqui. Este subtítulo foi colocado no Post só para
trazer boas lembranças.
O saudoso
Fernando Antônio Roquette Reis, então diretor do Banco de Desenvolvimento de
Minas Gerais, coordenou o primeiro trabalho de peso e de repercussão nacional
feito por uma equipe dedicada à função de planejamento, o "Diagnóstico da
Economia Mineira", publicado em 1968. Seus auxiliares de coordenação foram Élcio Costa Couto e Álvaro Fortes Santigo.
Entre autores e colaboradores, formou-se uma equipe formidável, tanto em
números quanto em qualidades. Foram mais de 40 técnicos do mais alto nível que
se podia obter no mercado da época. O "Diagnóstico" foi um
sucesso.
Com o
advento do Governo Rondon Pacheco e as nomeações de Fernando Reis para a
secretaria da Fazenda, Alysson Paulinelli para a Agricultura e Lúcio Assumpção
para a presidência do BDMG, boa parte dos autores e colaboradores do
Diagnóstico passaram a ocupar cargos executivos de porte. Bem formados, bem
entrosados e bem liderados, deram o suporte técnico para que Rondon Pacheco se
tornasse um dos mais produtivos governadores que o Estado já teve. Como
evidência, estão aí a Fiat e a modernização do agronegócio, que foram encubados
no fim dos anos 60 e princípio dos anos 70. Os coordenadores e autores do
diagnóstico tem lugar reservado na história econômica de Minas Gerais.
Se o
planejamento não emplacou foi porque os tempos mudaram e com eles evoluíram as
práticas e os conceitos. Tenho certeza que muitos dos autores e colaboradores
do Diagnóstico que continuam entre nós, depois de quase 50 anos, absorveram o
entendimento que é preciso deixar a economia
funcionar sem muita interferência do
Estado.
Eu não participei do do
Diagnóstico mas tive a honra de trabalhar com Lúcio, Allyson e Fernando, no
BDMG, no ministério da Agricultura e na
Vale. Fernando, apesar de pouco mais velho do que eu, não foi diretamente meu mestre; foi mestre dos meus mestres. Quem me introduziu nessa fabulosa equipe foi João Ribeiro
Ferreira Filho, o coordenador do volume IV (Agropecuária) do Diagnóstico da
Economia Mineira, que foi presidente de
subsidiária da Vale (Valep), sub-secretário de planejamento e duas vezes diretor do BDMG. Ele continua sendo o meu mestre mais precioso.
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