De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, IBGE, o PIB encolheu 0,8% no terceiro trimestre em relação ao trimestre anterior. A queda acumulada desde o início do período recessivo foi de quase 9%. Ou seja, por volta de meio trilhão de reais em mais de dois anos de penúria. No trimestre terminado em setembro, todos os grupos pesquisados pelo IBGE recuaram: a agropecuária 1,4%; a indústria 1,3%; os serviços 0,6%, o consumo das famílias 0,6% e o consumo do governo (o que mais deveria ter recuado), só 0,3%.
Com a divulgação desses números, as pressões sobre o governo aumentaram. Fala -se até em fritura do ministro Meirelles. Ora, o ambiente político já não é bom e agora surgem irresponsáveis embarcando nas canoas furadas da aceleração da queda dos juros, do aumento dos gastos do governo e do uso de reservas cambiais para reverter os números do crescimento.
É mais ou menos o mesmo papo de editorialistas europeus de esquerda quando se negociava o último resgate da Grécia: diziam que não se pode exigir austeridade de um país em recessão. E então punham na boca de Keynes tudo que ele não escreveu.
O governo Temer vai bem nesse ponto, cuidando do déficit fiscal e cautelosamente baixando os juros na medida em que a inflação vai perdendo força, como já está acontecendo. Porém, meter o pé no acelerador agora poderia pôr a perder os ganhos que resultaram dos juros altos e, admitamos, da recessão em si.
Mas o tema deste post é outro. O crescimento traz investimentos e vice versa. Mas há outras coisas, além do crescimento, que atraem investimentos.
O governo do presidente Temer tem, no momento, uma oportunidade extraordinária, que poucos presidentes têm em seu mandato. Ele pode entrar para história como um mandatário que mudou o país para muito melhor, abrindo o caminho para investimentos e aumentos da produtividade, elementos fundamentais para o crescimento econômico.
Essa oportunidade está exatamente no fato de o Brasil está hoje entre os países em que é mais difícil fazer negócios, ou seja, iniciar e tocar uma empresa cumprindo as exigências legais e procedimentais. Já foi pior, nos governos passados, quando o país chegava a ser hostil aos negócios, com exceção, é claro, dos negócios realizados dentro da “economia de laços”. A grandeza da oportunidade está exatamente no fato de que estamos tão mal. Podemos melhorar muito gastando pouco e dar um impulso inestimável na atração de investidores nacionais e estrangeiros.
O Banco Mundial pública, anualmente, o índice “ease of doing business”, que trata da facilidade e não da dificuldade de fazer negócios. O Brasil, como em quase tudo, está na rabeira do ranking. O país ocupou a 116ª posição entre 190 países em 2016 e está projetado que cairá para a 123ª em 2017.
O que significa isso? Segundo a metodologia usada pelo Banco Mundial, significa que o Brasil está, em média, péssimo no que diz respeito a iniciar um negócio, obter permissões para construção, obter eletricidade, registrar propriedades, obter créditos, proteger investidores minoritários, processar importações e exportações (tempo e custo), pagar impostos, fazer valer contratos, resolver insolvências, lidar com a regulação do mercado de trabalho e vender para o governo.
Trata-se de uma metodologia que busca produzir uma medida síntese do grau aproximado em que os países são amigáveis aos negócios. Aproximado, é claro. Porém, a partir de uma visão do ranking dos países (http://www.doingbusiness.org/rankings) pode-se verificar que trata-se de uma aproximação com qualidade. Não é por nada que quase todos os países do leste europeu e da Ásia central implementaram políticas para melhorar o ambiente de negócios nos últimos anos.
A metodologia é apresentada com bastante detalhe nos sites do banco mundial e pode ajudar na preparação de um projeto de simplificação e desburocratização do país.
Mas o projeto é o de menos. Como a cada escolha corresponde uma renúncia, para tocar um projeto dessa natureza o presidente teria de enfrentar a perda de popularidade dentro e fora do governo. Teria de encarar o corporativismo de cartórios, advogados, contadores, despachantes, funcionários públicos, empresas de logística, sindicatos e outros.
Mas qual é a do presidente, afinal? Deixar o governo em 2019 tendo cumprido um papel de relevância para o país ou cair no esquecimento e ser surrado pela história se for se desgastando devagarzinho por omissão e fraqueza. Ser presidente exige certas qualidades, dentre elas, ser conciliador ou contundente conforme a exigência da situação. Considerando a importância desse projeto, fazer pela metade ou fazer uma colcha incoerente de retalhos, é melhor não fazer nada e não levantar a lebre. Remember Hélio Beltrão, virou chacota.
O projeto exige vontade e determinação política, competência e estrutura. Vontade política depende do presidente. Competência, no caso, é escolher bem quem vai tocar o projeto. Já estrutura é um problema sério. Dada a sua importância, a ideia de criar um ministério poderia brilhar na cabeça de um assessor ou parlamentar oportunista. Não é por aí, assim como não cabe criar um grupo de trabalho do tipo do que projetou o camelo, com um coordenador e representantes de vários órgãos públicos, entidades de classe, etc. A última coisa que se pode admitir num trabalho como esse é a representatividade de áreas, principalmente as de interesse. Órgãos colegiados, internos ou externos, só serviriam para tumultuar o processo e diluir as responsabilidades pelas decisoês. Seriam um prato feito para lobistas infiltrados. O importante é que em um trabalho que afeta o bolso de inúmeras e poderosas categorias da sociedade, a elaboração das propostas seja imune ao corporativismo e aos vícios tradicionais da administração pública. É claro que em uma democracia as partes interessadas têm o direito de opinar. Mas que isso fique para às fases públicas dos processos e não ocorra nas fases técnica e burocrática, onde as coisas a são feitas de portas fechadas. Caso contrário o projeto estará altamente vulnerável, ainda em sua origem, às armadilhas impeditivas e procrastinadoras que tanto sucesso tiveram em colocar o país na rabeira do mundo em facilidade de fazer negócios.
1 comment:
Os leitores vão ter que perdoar o meu português, porém prefiro arcar com vossos sorrisos engraçados, e espero benévolos, que utilizar outros idiomas. Para mim, excelente oportunidade para seguir utilizando o portu-brasileiro.
Na realidade, caro JoaoLucio, a realidade objetiva do Brasil vista com os óculos dàquele ranking é muito muito pior, porque se olhamos com um pouco de raríssimo sentido comum os Países que seguem o Brasil, os únicos Países que possamos, "mais ou menos" como este blog, comparar com o Brasil, são a Índia e talvez a Algeria ! Todos os demais são ou Países em guerra/conflitos ou totalmente fora de qualquer possível comparação com o Brasil, como os vários "estados" das ilhas do Caribe. Por terminar, deveria resultar insuportável que incluso os amados-odiados-envidiados-despreciados vizinhos celeste y blanco estão melhor colocados no ranking !
Um grande abraço ao JoaoLucio
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